sábado, 19 de março de 2011

Mar Aberto



"Que sem nós dois o que resta sou eu
Eu assim ... tão só [...]

Ah! O amor!
Quando é demais ao findar leva a paz [...]
Sim! Meus olhos choram a falta dos teus
Estes teus olhos que foram tão meus"



Preciso Aprender a ser Só - Tom Jobim


"penso sempre que o mar não é esse denso escuro que me contas, sem palmeiras nem ilhas nem baías nem gaivotas, mas um outro mais claro e verde, num lugar qualquer onde é sempre verão e as emoções limpas como as areias que pisamos, não sabes desse meu mar porque nada digo, e temo que seja outra vez aquela coisa piedosa, faminta, as pequenas-esperanças, mas quando desvio meu olho do teu, dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas, e lentamente falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba assim nem agora nem aqui."


Caio Fernando Abreu

Tão frágil...



"Let the poets pipe of love
In their childish way [...]

If you want the thrill of love
I've been through the mill of love
Old love, new love
Every love but true love...Love for sale"
Love for sale - Diana Krall
Uma pessoa, quando tá longe, vive coisas que não te comunica, e tu, aqui, vive coisas que não a comunica. Então vocês vão se distanciando e quando vocês se encontrem, vocês vão falar assim: oi, tudo bom e tal, como é que vão as coisas? E aí ele vai te falar por cima de tudo o que ele viveu e, não sei, vai ser uma proximidade distante. Não adianta, no momento que as pessoas se afastam elas estão irremediavelmente perdidas uma pra outra.
Caio Fernando Abreu 

sábado, 29 de janeiro de 2011

Coruja



"Ponho os meus olhos em você
Se você está
Dona dos meus olhos é você
Avião no ar
Dia pra esses olhos sem te ver
É como o chão do mar"

Luz dos Olhos- Cássia Eller


"Tinham um olhar dentro, de quem olha fixo e sacode a cabeça,
acenando como se numa penetração entrassem fundo demais, concordando,
refletidas. Olhavam fixo, pupilas perdidas na extensão amarelada das órbitas, e
concordavam mudas. A sabedoria humilhante de quem percebe coisas apenas
suspeitas pelos outros. Jamais saberíamos das conclusões a que chegavam,
mas oblíquos olhávamos em tomo numa desconfiança que só findava com
algum gesto ou palavra.
Nem sempre oportunos. O fato é que tínhamos medo, ou quem sabe
alguma espécie de respeito grande, de quem se vê menor frente a outros seres
mais fortes e inexplicáveis. Medo por carência de outra palavra para. melhor
definir o sentimento escorregadio na gente, de leve escapando para um canto
da consciência de onde, ressabiado, espreitaria. E enveredávamos então pelo
caminho do fácil, tentando suavizar o que não era suave. Recusando-lhes o
mistério, recusávamos o nosso próprio medo e as encarávamos rotulando-as
sem problema como "irracionais", relegando-as ao mundo bruto a que deviam
forçosamente pertencer. O mundo de dentro do qual não podiam atrever-se a
desafiar-nos com o conhecimento de algo ignorado por nós. Pois orgulhos,
não admitiríamos que vissem ou sentissem além de seus limites.
Condicionadas a seus corpos atarracados, de penas cinzentas e três garras
quase ridículas na agressividade forçada -condicionadas à sua precariedade,
elas não poderiam ter mais do que lhe seria permitido por nós, humanos."


Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 26 de novembro de 2010


"Cansada.
Fatigada de percorrer essas ruas vazias.
Reflexos insanos.
Espelhos mortos.

Cansada.
Por trilhar essas estradas frias.
Máscaras vis
Do mundo dos enfermos!

Vista-se desse tolo calar!
Afogue-se sobre tua doce humanidade...
Livra-me desse pesar!

Vá coberto desse teu manto sujo!
Que já escorre pelo meu rosto
Essas tuas faces mortais!"

Naiara C. M.



"Afastou o próprio rosto e contemplou novamente o outro rosto. Embora destruído, o que restava do outro rosto continuava belo, e ainda imóvel, e também indecifrável. Então percebeu: o outro rosto não era um rosto vivo. O outro rosto era uma máscara morta sobre um outro rosto vivo. Estendeu as duas mãos e arrancou a máscara do outro rosto. Por trás da máscara, por baixo do outro rosto estava o rosto dele mesmo. Inteiro e sem ferimento algum, o rosto dele mesmo. E era lindo, o próprio rosto vivo por trás da máscara morta do outro rosto. Ele ficou olhando o próprio rosto. Ele estendeu as mãos e tocou o próprio rosto com todo carinho—e eram hirto, esse carinho — que era capaz."

Caio Fernando Abreu



"Alea Jacta Est"

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Abismos Particulares


"É o espinho que não se vê em cada flor
É a vida quando
Chega sangrando
Aberta em pétalas de amor"
O Velho e a Flor - Vinicius de Moraes



"Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou. À ponta do lápis o traço. Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou. Na ponta dos pés o salto. Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou. Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? Eu vos espero. E para lá que eu vou. Na ponta da palavra está a palavra. (...) À beira de eu estou mim. É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? Ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio. (...) Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. (...) À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo. Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto. (...) Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós."


Clarice Lispector

domingo, 31 de outubro de 2010

O Morro dos Ventos Uivantes




"Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde és Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar
Pensa,completamente silencioso,
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar."
Cecília Meireles



Catherine: "mas porque ele é mais eu do que eu própria. Não sei de que são feitas nossas almas, mas sei que a minha e a dele são iguais!(...)Meus maiores sofrimentos neste mundo têm sido os de Heathcliff.(...)Meu maior cuidado na vida é ele. Se tudo desaparecesse e ele ficasse, eu continuaria a existir. E se tudo o mais ficasse, e ele fosse aniquilado, eu ficaria só em um mundo estranho, incapaz de ter parte nele.(...)Meu amor por Heathcliff é como as rochas eternas que ficam debaixo do chão; uma fonte de felicidade quase invisível, mas necessária, eu sou Heathcliff" (pág. 104-105)

Heathcliff: "Porque traiu seu coração, Cathy? Não tenho para lhe dar uma palavra de consolo. Merece o que está sofrendo(...)pode arrancar também de mim beijos e lágrimas(...)você me ama...que direito tinha então de me deixar?.(...)Porque nem a desgraça, nem a miséria, nem a morte, nem nada - nenhuma praga mandada por Deus ou satanás nos poderia separar - (...) não lhe despedaçei o coração; você o despedaçou sozinha!E, com o seu, esmagou também o meu. (pág.203)



"All I am begins with you
Thoughts of hope understood
Half of me breathes in you
Thoughts of love remain true"
Sister- The Nixons

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

e que o simples seja eterno...


"Cause you and I
We are meant to be
Whatever the future might
Choose for us to see
Again…

You can break my heart in one or two
or in a zillion pieces
You can bring me down
You can take me high
Oh boy, we still have
One last dance
Let’s take it
Let’s give us one last chance

(...)I guess this song
Is sung off-key
That’s how I see
this sweet funny melody
The end"
Thiago Pethit, Sweet Funny Melody




Quando ele liga e ouço aquela voz, eu sei que aquela é a voz que minha alma precisava. Quando ele sorri desarmado, limitado e impotente, para todas as minhas dúvidas, inconstâncias e chatices, eu sei que é daquele sorriso que minha alma precisava.

Ele não faz muito pela minha angústia existencial, até por não saber. E consegue tudo de mim. Consegue até o que ninguém nunca conseguiu: me deixar leve. Sabe rir mole de bobeira? Sabe dançar idiota de alegria? Sabe dormir gemendo de saudade? Sabe tomar banho sorrindo para a sua pele? Sabe cantar bem alto para o mundo entender? Sabe se achar bonita mesmo de pijama e olheiras? Sabe ter ânsia de vômito segundos antes de vê-lo e ter fome de mundo segundos depois de abraçá-lo? Sabe não aguentar? Sabe sobrevoar o frio, o cinza, os medos, os erros e tudo que pode dar errado? Ele consegue fazer com que eu me perdoe por apenas viver sem questionar tanto.

Eu quero parar com tudo isso, ele, apesar dos poucos meses de diferença de idade, é um garoto inconsequente que não pode acompanhar minha louca linha de raciocínio meio poeta, meio neurótica, meio madura. Eu quero colocar um fim neste tormento de desejar tanto quem ainda tem tanto para desejar por aí. Mas aí eu me pergunto: pra quê? Se está tão bom, se é tão simples. Ele me ensinou que a vida pode ser simples, e tão boa. Tô uma perfeita adolescente, e isso parece um texto de diário que termina com o nome dele dentro de um coração desenhado com caneta roxa de glitter com cheiro de uva.


Tati Bernadi