terça-feira, 28 de junho de 2011

E hoje...



"De ontem em diante serei o que sou no instante agora
Onde ontem, hoje e amanhã são a mesma coisa
Sem a idéia ilusória de que o dia, a noite e a madrugada
são coisas distintas
Separadas pelo canto de um galo velho
"
De ontem em Diante - O Teatro Mágico


Realmente o tom geral devia estar pessimista.O pessimismo passou mas o bom propósito não: farei o possível para não amar demais as pessoas, sobretudo por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa, quase como uma responsabilidade na pessoa que o recebe. Eu tenho essa tendência geral para exagerar, e resolvi tentar não exigir dos outros senão o mínimo. É uma forma de paz... Também é bom porque em geral se pode ajudar muito mais as pessoas quando não se está cega pelo amor.


Clarice Lispector

domingo, 5 de junho de 2011

E suporte as cinco horas posteriores, e posteriores...



"Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos.
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir. (...)
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar
"
Canto para a minha morte - Raul Seixas 


"E hoje não. Que não me doa o existir dos outros, que não me doa hoje pensar nessa coisa puída de todos os dias, que não me comovam os olhos alheios e a infinita pobreza dos gestos com que cada um tenta salvar o outro deste barco furado. Que eu mergulhe no roxo deste vazio de amor de hoje e sempre e suporte o sol das cinco horas posteriores, e posteriores, e posteriores ainda."

Caio Fernando Abreu

sábado, 19 de março de 2011

Mar Aberto



"Que sem nós dois o que resta sou eu
Eu assim ... tão só [...]

Ah! O amor!
Quando é demais ao findar leva a paz [...]
Sim! Meus olhos choram a falta dos teus
Estes teus olhos que foram tão meus"



Preciso Aprender a ser Só - Tom Jobim


"penso sempre que o mar não é esse denso escuro que me contas, sem palmeiras nem ilhas nem baías nem gaivotas, mas um outro mais claro e verde, num lugar qualquer onde é sempre verão e as emoções limpas como as areias que pisamos, não sabes desse meu mar porque nada digo, e temo que seja outra vez aquela coisa piedosa, faminta, as pequenas-esperanças, mas quando desvio meu olho do teu, dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas, e lentamente falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba assim nem agora nem aqui."


Caio Fernando Abreu

Tão frágil...



"Let the poets pipe of love
In their childish way [...]

If you want the thrill of love
I've been through the mill of love
Old love, new love
Every love but true love...Love for sale"
Love for sale - Diana Krall
Uma pessoa, quando tá longe, vive coisas que não te comunica, e tu, aqui, vive coisas que não a comunica. Então vocês vão se distanciando e quando vocês se encontrem, vocês vão falar assim: oi, tudo bom e tal, como é que vão as coisas? E aí ele vai te falar por cima de tudo o que ele viveu e, não sei, vai ser uma proximidade distante. Não adianta, no momento que as pessoas se afastam elas estão irremediavelmente perdidas uma pra outra.
Caio Fernando Abreu 

sábado, 29 de janeiro de 2011

Coruja



"Ponho os meus olhos em você
Se você está
Dona dos meus olhos é você
Avião no ar
Dia pra esses olhos sem te ver
É como o chão do mar"

Luz dos Olhos- Cássia Eller


"Tinham um olhar dentro, de quem olha fixo e sacode a cabeça,
acenando como se numa penetração entrassem fundo demais, concordando,
refletidas. Olhavam fixo, pupilas perdidas na extensão amarelada das órbitas, e
concordavam mudas. A sabedoria humilhante de quem percebe coisas apenas
suspeitas pelos outros. Jamais saberíamos das conclusões a que chegavam,
mas oblíquos olhávamos em tomo numa desconfiança que só findava com
algum gesto ou palavra.
Nem sempre oportunos. O fato é que tínhamos medo, ou quem sabe
alguma espécie de respeito grande, de quem se vê menor frente a outros seres
mais fortes e inexplicáveis. Medo por carência de outra palavra para. melhor
definir o sentimento escorregadio na gente, de leve escapando para um canto
da consciência de onde, ressabiado, espreitaria. E enveredávamos então pelo
caminho do fácil, tentando suavizar o que não era suave. Recusando-lhes o
mistério, recusávamos o nosso próprio medo e as encarávamos rotulando-as
sem problema como "irracionais", relegando-as ao mundo bruto a que deviam
forçosamente pertencer. O mundo de dentro do qual não podiam atrever-se a
desafiar-nos com o conhecimento de algo ignorado por nós. Pois orgulhos,
não admitiríamos que vissem ou sentissem além de seus limites.
Condicionadas a seus corpos atarracados, de penas cinzentas e três garras
quase ridículas na agressividade forçada -condicionadas à sua precariedade,
elas não poderiam ter mais do que lhe seria permitido por nós, humanos."


Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 26 de novembro de 2010


"Cansada.
Fatigada de percorrer essas ruas vazias.
Reflexos insanos.
Espelhos mortos.

Cansada.
Por trilhar essas estradas frias.
Máscaras vis
Do mundo dos enfermos!

Vista-se desse tolo calar!
Afogue-se sobre tua doce humanidade...
Livra-me desse pesar!

Vá coberto desse teu manto sujo!
Que já escorre pelo meu rosto
Essas tuas faces mortais!"

Naiara C. M.



"Afastou o próprio rosto e contemplou novamente o outro rosto. Embora destruído, o que restava do outro rosto continuava belo, e ainda imóvel, e também indecifrável. Então percebeu: o outro rosto não era um rosto vivo. O outro rosto era uma máscara morta sobre um outro rosto vivo. Estendeu as duas mãos e arrancou a máscara do outro rosto. Por trás da máscara, por baixo do outro rosto estava o rosto dele mesmo. Inteiro e sem ferimento algum, o rosto dele mesmo. E era lindo, o próprio rosto vivo por trás da máscara morta do outro rosto. Ele ficou olhando o próprio rosto. Ele estendeu as mãos e tocou o próprio rosto com todo carinho—e eram hirto, esse carinho — que era capaz."

Caio Fernando Abreu



"Alea Jacta Est"

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Abismos Particulares


"É o espinho que não se vê em cada flor
É a vida quando
Chega sangrando
Aberta em pétalas de amor"
O Velho e a Flor - Vinicius de Moraes



"Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou. À ponta do lápis o traço. Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou. Na ponta dos pés o salto. Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou. Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? Eu vos espero. E para lá que eu vou. Na ponta da palavra está a palavra. (...) À beira de eu estou mim. É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? Ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio. (...) Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. (...) À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo. Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto. (...) Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós."


Clarice Lispector